terça-feira, 24 de abril de 2012

Ninguém


Ninguém me ligou,
Ninguém mandou mensagem,
Nem mesmo um frio e-mail.
Ninguém perguntou como foi a noite,
Se o sono foi tranquilo ou se somatizei tudo isso,
Ninguém entregou meu jornal,
E nem eu me dei ao trabalho de procurá-lo.
Não chegou hoje.
Ninguém precisou falar, mas eu senti. Eu previ.
Só eu senti falta.

domingo, 15 de abril de 2012

Reconhecer

Padeço na ansiedade de viver tudo novamente,
O reencontro é como se fosse sempre o recomeço,
É reconhecer o que há de bom em ter, em ser, em viver.
Esse amor sem experimentação,
Sem ensaio.
Foi feito assim, ignorando as regras do pragmatismo Europeu,
Amoderno, é verdade, mas já aviso, de laço fortes.
Medieval na pureza e na beleza.

sábado, 31 de março de 2012

Preâmbulo

O mundo está farto de amores velados. Falta, na verdade - ou na minha verdade - a construção despretensiosa de algo que vá além da sinestesia habitual. Cheirar, beijar, abraçar, querer... Só isso? Queria perceber o olhar acanhado, o medo da entrega e a ilusão perene de que tudo, redundantemente, perdurará.
 Mas tudo é inconstância nesse preâmbulo visto, revisto e, por todos nós, já revisado e sofrido.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

ficar

trago na ânsia do amanhã
a vontade que há de vir
e ficar.

morar
descansar
acalmar
e ficar.

o "não" que não é dito
a permissão que não falta
a vontade de amar
e ficar.

tornar sagrado
resplandecer
nascer
e ficar.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Ritual

Todo dia tem de terminar assim? Só, nesse quarto pequeno, nessa cama desforrada?
Esqueço de toda singularidade das horas anteriores e escolho sofrer o ardor do meu próprio silêncio. Toda dor silencia.
Tudo é silêncio, para que, no dia seguinte, logo ao amanhecer, deite sobre o meu corpo, o som que eu escolher. O som que eu eleger como som do meu dia! E dessa forma, quebrando o desagradável companheiro, eu possa acordar e - verdadeiramente - acordar.
Recomeçar todo o ritual: Viver, sorrir, amar, cansar, silenciar... relembrar!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Toda noite tem platéia.

A sinfônica toca uma música estranha, descompassada... o Maestro não quer ouvir mais, não quer tentar corrigir. Não há como corrigir. Foram noites e noites seguidas tocando a mesma canção, desafinando nos mesmos acordes, errando o tempo da execução. O show ficou triste! A coluna dói, os brações também e tudo é reflexo da dor interna, que, numa violenta revolta, transpassa o espaço espiritual e mostra-se no corpo. Mostra-se no rosto, mostra-se no resto.
O espetáculo é descontínuo, mas não vai parar. Toda noite tem platéia. Toda noite tem show. Todo dia tem dor. Todo dia tem choro!
O Maestro quer descansar!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Um par de um

Eu gosto de começar narrativas com um "É como se fosse".
É ingênuo, é esperançoso, é como se algo - verdadeiramente - fosse mudar.
E ás vezes...
É como se fosse uma manhã de outono britânico, um café na calçada, folhas caindo,
duas cadeiras, duas xícaras, tudo num par.
Um par de um.
É uma pena meu outono britânico tardar tanto a chegar.
É uma espera interminável
É como se sempre houvesse uma xícara,
uma cadeira
Um par de um.
Um triste par de um
É como se fosse impossível.

e talvez seja.