segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Foto-grave


Alinha teu corpo com o sol e deixa que devagarzinho, fingindo não querer, eu fotografe sua alma. Foto-grave seu amor, seus medos, sua dor.
Na foto, sem cor e nem alma, fiquem apenas os rabiscos da agonia e da incerteza.
Grave, meu amor, o que for ficar de bom do nosso dom de amar e esperar.
Esperar tudo passar, esperar a foto colorir e sorriso voltar.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Em tudo falta uma parte

os sapatos jogados no chão
os livros fora do lugar
a cama desforrada
o travesseiro que falta
um cobertor todo meu
a pele que não gruda
só o som da minha respiração
dormir a noite toda
não acordar pra te observar
a falta dos seus olhos castanhos
o seu "não"

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Dor errada


Se até a dor, que é castigo, dói no lugar errado, a quem condenar?
Dói no lado oposto, no lado onde deveria haver calma.
E intriga. Claro, só ao dono do peito.
O dono real, não o dono de direito.

domingo, 15 de julho de 2012

Outro


Decido por dar um tempo nas aliterações,
Nas nostalgias cansadas e nas lágrimas, agora, um pouco sem verdade. 
Decido por ver o mar todas as manhã, 
Decido por passar em frente ao museu das pedras e ir ao cinema pouco frequentado.
Decido curtir aquele frio que temi 
Esperar por outras mensagens, outras ligações. 
Decido por outro. 
Não outro você, nem outro de você. Outro, sim, outro d'eu e você.
Não mais que outro.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Sobre os santos e a chuva


Eram dedos apontados para o céu. Não havia norte, não havia nuvém. O sertanejo, coitado, cansado de reviver a mesma história. Cansado de ser Baleia, morto covardemente, sonhando com o céu e suas préas. Cansado de ser homem pequeno. Abatido a cada verão que não terminava. Era verão no céu, e quando não era, no verão ele pensava. Tremia, temia.
Os santos, estáticos, de barro, gesso e, sem dúvidas, recobertos de fé. Observavam, olhando fixamente para o mesmo lugar, sempre. Sem pestanejar, sem se comover. Sem chover.

E a chuva, desacredita, sem prece, sem fé... nada.

sábado, 23 de junho de 2012

Há


Esses dias parecem anos. Sem fim, sem feriado, sem final de semana. Dias sem fim.
Talvez eu recomece. Tudo igual. Desde o amor velado até o gostar medieval.
Mas não há reconstrução. Nunca há.
Nesse mundo há de ter outro inteiro, igual a você, igual a mim.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Nome sem complemento


Na cínica reconstrução das vontades ele insistia.
Todo dia, noite até, ele revia as memórias e os contratos,
Tudo quebrado, rasgado, inválido.
Espalhava os restos ao redor e, na tentativa mais vã, tentava colar.
Colava dedos, mãos e pés, mas não memórias.

Agora eram todos sujeitos sem predicados,
Textos sem pontos de continuação
E o medo de aquele que lá existe, ser final.
E o que falar das eternas reticências que ficaram entre os "e"?
Sem métrica, rima, ou as já cansadas dêixis.
Todo texto queria ser impessoal.

Era um nome sem complemento.